quinta-feira, 24 setembro, 2026
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El Niño coloca produção de conilon do Espírito Santo em alerta para 2026

O Espírito Santo entra em um novo ciclo da cafeicultura sob pressão das condições climáticas. A previsão de avanço do El Niño no período 2026/2027 coloca em alerta a produção de café conilon, principal variedade cultivada no Estado, em uma cadeia de forte peso na renda rural e nas exportações capixabas.

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que o Espírito Santo produzirá 12,1 milhões de sacas de conilon em 2026, uma redução de 14,3% em relação à safra anterior. Segundo a companhia, a queda está relacionada principalmente à florada irregular provocada pelas baixas temperaturas registradas nas regiões produtoras.

O cenário preocupa porque o café é uma cultura perene e as condições climáticas durante a formação das lavouras podem afetar não apenas a colheita imediata, mas também os ciclos seguintes. Técnicos da Secretaria de Estado da Agricultura já haviam apontado, em junho, que o Espírito Santo começava a sentir os efeitos do El Niño, com previsão de um inverno mais quente e chuvoso, seguido por uma primavera mais quente e seca.

A influência do clima sobre a cafeicultura também foi destacada nesta quinta-feira (24) pelo analista de Estudos Econômicos do Sistema OCB Nacional, Arthur Nery. Durante uma apresentação sobre o cenário econômico do cooperativismo, ele colocou os fatores climáticos entre os principais pontos de atenção para o Espírito Santo, especialmente para a cadeia do café.

“O clima expõe muito o crédito rural, e a florada do conilon e as condições esperadas pelo desenvolvimento do grão” estão entre os fatores que precisam ser considerados no planejamento estratégico do setor, afirmou Nery.

Espírito Santo lidera produção de conilon

A preocupação ganha dimensão econômica devido à importância do Espírito Santo na produção nacional. Segundo o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), o Estado responde por aproximadamente 70% da produção brasileira de conilon.

São cerca de 286 mil hectares plantados em 68 municípios. O valor gerado pelo conilon representa aproximadamente 38% do PIB agrícola capixaba.

A safra de 2025 havia marcado uma recuperação da atividade. A primeira estimativa da Conab apontava produção de 11,8 milhões de sacas no Espírito Santo, alta de 20% em relação às 9,8 milhões de sacas colhidas em 2024.

O desempenho também foi acompanhado pelo aumento da produtividade. Dados do Incaper indicam que a média estadual chegou a 49 sacas por hectare, recorde da série histórica.

Para 2026, entretanto, a projeção é de retração. A Conab estima queda de 14,3% na produção capixaba de conilon, enquanto a produção brasileira da variedade deverá recuar 6,6%, para 19,4 milhões de sacas.

Efeito pode chegar às exportações

O impacto de uma eventual redução da safra não se limita às propriedades rurais. O café é o principal produto da pauta de exportações do agronegócio capixaba.

Entre janeiro e agosto de 2025, o Espírito Santo exportou 206 mil toneladas de café e derivados, movimentando US$ 1,1 bilhão. Apenas o café em grão respondeu por US$ 966,9 milhões. Desse total, 81% das exportações foram de conilon.

No período, o café capixaba chegou a 74 países, com Turquia, Estados Unidos e Bélgica entre os principais destinos.

A exposição ao mercado internacional também aparece nos números de 2024. Segundo dados do Governo do Estado, o Espírito Santo exportou mais de 8 milhões de sacas de conilon, gerando receita próxima de US$ 1,8 bilhão.

Para Nery, a questão climática precisa ser analisada em conjunto com fatores como crédito e custos de produção na definição das estratégias do cooperativismo. Segundo o analista, o cenário combina fatores positivos e negativos e exige planejamento, principalmente nos setores mais dependentes das condições climáticas e do crédito rural.

El Niño exige atenção do setor

O próprio Incaper vem tratando o El Niño 2026/2027 como um fator de risco para o agronegócio capixaba. Em uma programação técnica realizada neste ano, o instituto incluiu uma apresentação específica sobre os possíveis impactos do fenômeno na agricultura e na pecuária do Estado.

No caso do conilon, a dimensão da atividade ajuda a explicar a relevância do alerta. Além de responder por uma parcela expressiva da produção nacional, o cultivo está presente em aproximadamente 49 mil propriedades rurais capixabas.

A Conab ressalta, entretanto, que o impacto do El Niño sobre a produção ainda dependerá da evolução das condições climáticas.

No mercado internacional, a companhia aponta o fenômeno climático previsto para o ciclo 2026/2027 como um dos fatores que podem pressionar negativamente a produção em diferentes países e contribuir para a sustentação dos preços internacionais do café.