Um grupo de WhatsApp chamado “Foco, Força e Fé” teria sido utilizado como uma rede fechada de monitoramento e proteção territorial pela Tropa do Urso, grupo criminoso apontado como ligado ao Comando Vermelho (CV). Segundo denúncias apresentadas pelo Ministério Público do Espírito Santo (MPES), integrantes usavam o aplicativo para acompanhar e repassar, em tempo real, informações sobre a movimentação das forças de segurança em Colatina, no Noroeste do Espírito Santo.
As informações constam em três denúncias apresentadas pela 1ª Promotoria Criminal de Colatina contra 42 integrantes da organização. Segundo o MPES, 31 denunciados estão presos temporariamente, quatro cumprem prisão domiciliar e sete são considerados foragidos, entre eles apontadas como principais lideranças do grupo.
Alertas sobre operações e viaturas
De acordo com o Ministério Público, o grupo de WhatsApp era utilizado para compartilhar informações sobre prisões, operações policiais, presença de viaturas, blitzes, deslocamentos das equipes de segurança e condições de determinadas áreas.
A comunicação teria como objetivo permitir que integrantes do grupo interrompessem temporariamente a venda de drogas, escondessem ou retirassem entorpecentes e armas de imóveis e pontos de comercialização e evitassem prisões em flagrante.
Os alertas tinham atenção especial às ações das polícias Militar e Civil em bairros como Vista da Serra, Perpétuo Socorro e Bela Vista.
Ainda segundo as denúncias, a estrutura criminosa mantinha armas de maior poder de fogo, como fuzis e pistolas, que poderiam ser transferidas de locais de armazenamento conforme as informações sobre a movimentação policial.
Drogas, dinheiro e adolescentes
O Ministério Público aponta que a organização mantinha uma estrutura financeira baseada no uso recorrente de chaves PIX e contas bancárias de terceiros. O mecanismo seria utilizado para centralizar recursos provenientes do comércio de drogas e realizar pagamentos a fornecedores sem a necessidade de movimentação de dinheiro em espécie.
As investigações também identificaram, segundo o MPES, a participação de adolescentes em atividades de venda de drogas e tarefas de apoio à organização.
Entre os entorpecentes mencionados nas denúncias estão cocaína, crack, maconha, ecstasy e lança-perfume.
Estrutura da organização
Conforme o Ministério Público, a Tropa do Urso possuía uma estrutura hierarquizada, com comando central e gerências responsáveis por diferentes áreas. O grupo também contaria com um braço logístico encarregado de transportar drogas entre fornecedores, depósitos, gerentes e vendedores.
A logística incluiria ainda o transporte de cargas entre municípios e estados, a manutenção de estoques em diferentes locais, o recolhimento do dinheiro das vendas e a disponibilização de contas bancárias para movimentação dos valores.
Segundo o MPES, a análise de celulares apreendidos, depoimentos, interrogatórios e outras diligências permitiu aos investigadores reconstruir parte da cadeia de fornecimento e distribuição dos entorpecentes.
Cidades citadas nas investigações
As denúncias apontam atuação da organização em diferentes municípios e regiões:
- Colatina: apontada como principal centro de operações, com pontos de venda e gerências em bairros como Bela Vista, Perpétuo Socorro, Colatina Velha, Vista da Serra e São Judas, além do monitoramento das forças de segurança.
- Serra: citada como ponto de aquisição e abastecimento de drogas, incluindo crack, ecstasy e lança-perfume, além de local de atuação de gerentes.
- São Roque do Canaã: segundo o MP, o grupo mantinha uma célula com pontos de comercialização e locais para armazenamento e distribuição de drogas.
- Grande Vitória: apontada como base operacional e rota para o transporte de entorpecentes e circulação de valores entre a região metropolitana, Colatina e outras cidades do interior.
- Rio de Janeiro: citado como origem de armas e drogas sintéticas, além de local onde estariam integrantes da cúpula e onde alguns suspeitos buscariam refúgio.
Lideranças apontadas pelo MP
Bryan Lyrio Deolindo, Hugo Henrique dos Santos e Vinicius Lung são apontados pelo Ministério Público como lideranças da Tropa do Urso. Segundo as denúncias, os três estariam foragidos no Rio de Janeiro e continuariam exercendo influência sobre decisões estratégicas, controle territorial e abastecimento de armas e drogas.
Os 42 denunciados respondem, conforme o MPES, por crimes como tráfico de drogas, associação para o tráfico e organização criminosa. O Ministério Público também requereu a prisão preventiva dos denunciados, alegando risco de continuidade das atividades criminosas caso permanecessem em liberdade.
Operação Churchill
As investigações que deram origem à Operação Churchill foram coordenadas pela Delegacia Especializada de Narcóticos (Denarc) de Colatina. Mandados judiciais foram cumpridos em Colatina, Cariacica, Serra, Aracruz e Águia Branca.
Segundo as informações apresentadas no processo, as investigações começaram em abril de 2025 e culminaram na operação, realizada em julho do mesmo ano.
Treze integrantes são condenados
No último dia 11, a 1ª Vara Criminal de Colatina publicou sentença condenando 13 integrantes da Tropa do Urso. Um dos acusados foi absolvido.
O grupo já havia sido alvo da Operação Wyoming, deflagrada em abril do ano passado. Na ocasião, 17 pessoas foram denunciadas pelo Ministério Público, entre elas os três nomes apontados como principais lideranças e que permanecem foragidos.
Nesse processo, também foi apontada uma cadeia de comando com atuação interestadual e diretrizes que, segundo as investigações, partiriam do Rio de Janeiro. O caso ainda envolve alegadas alianças com grupos criminosos como o Primeiro Comando de Vitória (PCV) e o Comando Vermelho (CV).




