A Polícia Civil do Espírito Santo (PCES), por meio da Delegacia Especializada de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), deflagrou, na manhã dessa quarta-feira (04), a Operação “Desconectado”, com o objetivo de desarticular o núcleo de uma organização criminosa digital dedicada à prática de tortura contra animais, produção, armazenamento e difusão de pornografia infantojuvenil, apologia ao nazismo e indução sistemática à automutilação e ao suicídio.
O alvo da ação foi um adolescente de 16 anos, apreendido no bairro Jardim Limoeiro, no município da Serra, em cumprimento a mandado de busca e apreensão expedido pela Justiça. As investigações apuram a prática de atos infracionais cometidos em plataformas digitais, especialmente no aplicativo Discord, com vítimas em diversas unidades da Federação e também no exterior.
As informações foram divulgadas em entrevista coletiva de imprensa realizada nessa quinta-feira (05), na Chefatura de Polícia, em Vitória.
Segundo apurado, os envolvidos utilizavam ambientes virtuais para incentivar, organizar e transmitir condutas extremamente violentas, incluindo maus-tratos e tortura contra animais, além de estimular a automutilação e o autoflagelo, principalmente entre crianças e adolescentes, em transmissões ao vivo.
Durante o cumprimento do mandado, foram apreendidos computadores, aparelhos celulares e dispositivos de armazenamento de dados, que serão submetidos à perícia técnica para aprofundamento das investigações e identificação de outros possíveis envolvidos.
De acordo com o chefe da Divisão de Combate à Corrupção e ao Crime Organizado (Diccor), delegado Tarik Halabi Souki, o adolescente exercia papel central na estrutura criminosa.
“Ele é apontado como uma das lideranças e fundadores de um grupo que atuava no Discord, no qual organizava e determinava as ações criminosas, funcionando como um verdadeiro “orador” das transmissões, nas quais eram praticados atos de extrema violência e degradação humana. As investigações indicam que o adolescente dava ordens, induzia e instigava vítimas a praticarem atos de automutilação, além de participar diretamente de crimes envolvendo maus-tratos a animais e a distribuição de material de abuso sexual infantil”, disse.
A análise preliminar do material apreendido revelou a existência de centenas de vítimas, além da participação do investigado em outros grupos criminosos hospedados em diferentes plataformas digitais. “Também foi localizado um simulacro de arma de fogo, que, segundo as investigações, era utilizado como instrumento de intimidação e afirmação de poder nos ambientes virtuais”, explicou Tarik.
O adjunto da Delegacia Especializada de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), delegado Tarsis Gondim, destacou que o conteúdo apurado nas investigações é descrito como um verdadeiro “teatro do horror”, com elevado grau de violência psicológica e simbólica.
Segundo ele, a crueldade era tratada como forma de entretenimento e transmitida em tempo real, com incentivo dos participantes. Ainda de acordo com o delegado, a investigação teve início a partir de uma denúncia e foi deflagrada com urgência após a inteligência policial identificar que o grupo articulava a reativação do chamado jogo “Baleia Azul”, uma sequência de desafios que induzem progressivamente à automutilação e culminam no suicídio da vítima. A apreensão do adolescente foi fundamental para interromper um risco iminente e letal a jovens em todo o território nacional.
“A Polícia Civil reforça a importância da denúncia e orienta que as vítimas procurem ajuda junto aos pais ou responsáveis, órgãos de proteção à criança e ao adolescente, delegacias especializadas e demais instituições de apoio. A PCES também alerta pais e responsáveis sobre a necessidade de acompanhar e supervisionar o uso de dispositivos eletrônicos por crianças e adolescentes, ressaltando que o ambiente virtual pode representar riscos graves quando não há controle adequado”, disse o delegado Tarsis Gondim.
O adolescente foi encaminhado ao Centro Integrado de Atendimento Socioeducativo (Ciase), onde permanece apreendido por decisão judicial. Ele responderá por atos infracionais análogos aos crimes de organização criminosa, apologia ao crime e ao nazismo, maus-tratos a animais, distribuição e armazenamento de pornografia infantojuvenil, além de incitação, indução e instigação à automutilação e ao suicídio, entre outros.
Em razão do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a Polícia Civil não divulga informações que possam levar à identificação do adolescente, destacando que todas as ações têm como foco a proteção das vítimas e a repressão qualificada aos crimes praticados no ambiente digital.




