O preço do café começou julho em forte alta, acumulando valorização de 13,2% e ampliando a recuperação iniciada no mês anterior. Dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Universidade de São Paulo (USP), mostram que a saca do café arábica foi cotada a R$ 1.787,48 nesta segunda-feira (6), o maior valor registrado nos últimos 30 dias.
A alta representa uma mudança de tendência em relação ao comportamento do mercado ao longo de 2026. Entre março e junho, o preço médio da saca caiu de R$ 1.913,89 para R$ 1.476,77. Desde que atingiu o menor patamar do ano, de R$ 1.383,57, em 9 de junho, no entanto, o arábica passou a registrar valorização contínua.
O café robusta, também amplamente consumido no Brasil, segue trajetória semelhante. Desde abril, o preço médio da saca subiu de R$ 917,05 para R$ 1.087,05, uma alta de aproximadamente 18% em três meses.
Segundo o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), Pavel Cardoso, caso a valorização se mantenha, os consumidores poderão sentir os efeitos no bolso já no próximo mês.
“Movimentações muito abruptas geram grande preocupação para a indústria. Vamos acompanhar se essa volatilidade reduz parte dessa alta nos próximos dias. Se os preços permanecerem elevados, a partir do início de agosto a indústria deverá realizar alguns reajustes para o varejo brasileiro”, afirma.
Entre os principais fatores que explicam a alta estão o aumento das chuvas, o baixo nível dos estoques globais e a influência do fenômeno El Niño.
Embora seja comum a ocorrência de chuvas nesta época do ano, Cardoso afirma que produtores relataram precipitações mais intensas do que o habitual, provocando a queda de grandes quantidades de frutos e dificultando a colheita.
Relatório do Itaú BBA reforça esse cenário ao destacar que as chuvas acima da média entre maio e junho nas principais regiões produtoras comprometem a colheita, dificultam a secagem dos grãos e podem reduzir sua qualidade. Além disso, o excesso de umidade pode antecipar a florada da próxima safra, afetando o desenvolvimento da produção.
Em relação aos estoques, a expectativa da indústria é recuperar parte das margens com a safra deste ano. O Itaú BBA projeta que o saldo global — diferença entre a produção e o consumo de café — aumente de 3,6 milhões de sacas na safra 2025/26 para 13 milhões de sacas na temporada 2026/27.
Já os impactos do El Niño devem ser percebidos principalmente na próxima safra. De acordo com Cardoso, o fenômeno costuma provocar temperaturas mais elevadas e redução das chuvas em importantes áreas produtoras, combinação que compromete o desenvolvimento das lavouras e reduz o potencial produtivo.
No Brasil, os efeitos do El Niño variam conforme a região. A previsão é de estiagem no Nordeste, o que pode afetar não apenas a produção de café, mas também culturas como cana-de-açúcar e frutas cítricas.




